{"id":647,"date":"2022-03-14T14:14:31","date_gmt":"2022-03-14T17:14:31","guid":{"rendered":"https:\/\/carlosp.com.br\/vr\/?p=647"},"modified":"2023-07-05T14:16:44","modified_gmt":"2023-07-05T17:16:44","slug":"medicina-baseada-em-valor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/carlosp.com.br\/vr\/medicina-baseada-em-valor\/","title":{"rendered":"MEDICINA BASEADA EM &#8220;VALOR&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Segundo dados de pesquisa recente do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.uftm.edu.br\/ics\/nea-deas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>N\u00facleo de Estudos e An\u00e1lises \u2013 NEA<\/u><\/a>\u00a0da Universidade Federal do Tri\u00e2ngulo Mineiro, as despesas com sa\u00fade em nosso pa\u00eds, no ano de 2020, consumiram cerca de R$692,88 bilh\u00f5es, ou seja, de 9,3% de todo o PIB anual. Desse percentual, cerca de R$171,50 bilh\u00f5es, ou 24,75%, s\u00e3o gastos particulares e R$216,97 bilh\u00f5es, ou 31,31% s\u00e3o gastos com a sa\u00fade suplementar (planos privados, seguradoras, autogest\u00e3o etc). De uma primeira an\u00e1lise \u00e9 poss\u00edvel perceber que os gastos particulares com sa\u00fade alcan\u00e7am quase todo o montante das despesas consumidas pelos usu\u00e1rios dos planos de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Nesse sentido, sabemos que de todo o montante despendido na sa\u00fade suplementar, apenas cerca de 8% s\u00e3o repassados aos profissionais m\u00e9dicos e cirurgi\u00f5es dentistas, ao passo que as despesas particulares, ao menos em uma primeira leitura, n\u00e3o contam com a intermedia\u00e7\u00e3o do atravessador (operadoras) da m\u00e3o de obra especializada. Isso nos mostra que \u201ch\u00e1 vida fora dos planos de sa\u00fade\u201d.<\/p>\n<p>Por outro lado, a remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dica vem migrando ano a ano para as m\u00e3os daquele que controla sua atividade (atravessador). O valor de 1 CH (coeficiente de honor\u00e1rios) da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.amhs.com.br\/tabelas\/AMB-1992.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>Tabela AMB<\/u><\/a>\u00a01992 valia R$0,51 (cinquenta e um centavos) em maio de 1996. Quando atualizamos matematicamente esse mesmo valor pelo IGPM atual, constatamos que 1 CH (coeficiente de honor\u00e1rios) vale hoje (mar\u00e7o de 2022) R$4,54 (quatro reais e cinquenta e quatro centavos). A consulta m\u00e9dica, se fosse atualizada ao longo dos anos pelo \u00edndice acima, custaria hoje o valor de R$454,00 (quatrocentos e cinquenta e quatro reais), ou seja 100 CH\u2019s.<\/p>\n<p>Considerando os valores acima e os valores do CH da Tabela AMB\/92 \u00e9 poss\u00edvel perceber que uma ruptura de manguito deveria custar R$2.270,00 (dois mil e duzentos e setenta reais), uma descompress\u00e3o medular deveria custar R$6.810,00 (seis mil e oitocentos e dez reais), uma reconstru\u00e7\u00e3o de ligamento cruzado deveria custar R$4.540,00 (quatro mil e quinhentos e quarenta reais), uma endoscopia deveria custar R$3.632,00 (tr\u00eas mil e seiscentos e trinta e dois reais), uma vitrectomia via pars plana deveria custar R$6.583,00 (seis mil e quinhentos e oitenta e tr\u00eas reais) e uma cirurgia intracraniana deveria custar R$11.350,00 (onze mil e trezentos e cinquenta reais). Estamos muito longe dessa realidade.<\/p>\n<p>Todos os valores acima apontados consideram apenas os honor\u00e1rios m\u00e9dicos baseados no CH (coeficiente de honor\u00e1rios) da tabela AMB\/92. Alguns dir\u00e3o que a tabela\u00a0<a href=\"https:\/\/amb.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>AMB<\/u><\/a>\u00a0est\u00e1 ultrapassada pela CBHPM ou por outro indexador que queira ser substitu\u00eddo. Por\u00e9m, o que importa perceber \u00e9 o quanto foi perdido da remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dica ao longo de quase tr\u00eas d\u00e9cadas e desviado para os tomadores dos servi\u00e7os (atravessador). Uma consulta m\u00e9dica \u00e9 remunerada por alguns planos de sa\u00fade ao valor de R$30,00 (trinta reais). Durante anos os m\u00e9dicos foram deixando que sua remunera\u00e7\u00e3o fosse desviada para outros \u201cplayers\u201d.<\/p>\n<p>Por outro lado, as modalidades de remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dica v\u00eam sendo alvo de grande debate. O modelo\u00a0<i>fee for service<\/i>, ou pagamento por servi\u00e7os (conta aberta), vem sofrendo franco ataque ao argumento de gastos exagerados, superfaturamento de pre\u00e7os e abusos na solicita\u00e7\u00e3o de exames. Quanto mais se gasta, maior a remunera\u00e7\u00e3o do prestador, segundo o debate. J\u00e1 o modelo de remunera\u00e7\u00e3o por\u00a0<i>capitation<\/i>, baseado no n\u00famero de vidas a serem atendidas, remunera o prestador a pre\u00e7o fixo. Nesse \u00faltimo modelo, sem embargo do poder de monops\u00f4nio das operadoras, quanto menos o prestador atender, maior ser\u00e1 o seu resultado financeiro. O risco e a escolha perversa de quem ser\u00e1 atendido \u00e9 transferido para o servi\u00e7o, que passa a dificultar os atendimentos e procedimentos complexos com vista \u00e0 sobra de caixa no final do m\u00eas. Em meio aos modelos prospectivos e o retrospectivo\u00a0<i>fee for service<\/i>\u00a0s\u00e3o tamb\u00e9m apresentados os modelos\u00a0<i>bundle<\/i>, que considera um ciclo de cuidado e n\u00e3o apenas procedimentos isolados, como nos tratamentos oncol\u00f3gicos, o modelo de or\u00e7amento global, em que um servi\u00e7o recebe um valor certo para resolver todas as demandas do tomador, ou ainda o pagamento por performance, que nada mais \u00e9 que o\u00a0<i>fee for service<\/i>\u00a0com um adicional de produtividade.<\/p>\n<p>Feitas essas considera\u00e7\u00f5es, ouve-se muito que agora a preocupa\u00e7\u00e3o do mercado \u00e9 a melhoria do atendimento da sa\u00fade baseada em valor, traduzindo nesse conceito a ideia de que os profissionais dever\u00e3o melhorar a qualidade de seu atendimento e comprovar a melhoria com capacita\u00e7\u00e3o e \u00edndices de acredita\u00e7\u00e3o e de qualidade.<\/p>\n<p>Pois bem. O mercado retirou grande parte da remunera\u00e7\u00e3o dos profissionais. Em alguns procedimentos e exames, os prestadores recebem cerca de 5% daquilo que deveriam receber. N\u00e3o satisfeitos, os planos agora dizem que os profissionais dever\u00e3o melhorar a qualidade do servi\u00e7o que ele, tomador, destruiu ao longo dos \u00faltimos 30 anos. A \u201cre-humaniza\u00e7\u00e3o da medicina\u201d proposta pelas operadoras sob os mais variados modelos de remunera\u00e7\u00e3o parte da ideia de que os profissionais precisam dar \u201cvalor \u2013 qualidade\u201d ao trabalho que desempenham, como se eles, prestadores, nunca tivessem tido a preocupa\u00e7\u00e3o com seus pacientes. \u00c9 incr\u00edvel perceber que o mercado que desumanizou a medicina agora pretende \u201cre-humaniz\u00e1-la\u201d a baix\u00edssimo custo, dizendo que s\u00e3o os profissionais que n\u00e3o entregam a qualidade necess\u00e1ria. \u00c9 uma absoluta distor\u00e7\u00e3o da realidade.<\/p>\n<p>Afora a redu\u00e7\u00e3o dos honor\u00e1rios, os m\u00e9dicos foram desviados de sua fun\u00e7\u00e3o para preencher uma infinidade de laudos e justificativas de procedimentos, reduzindo os custos de sua atividade para a operadora. Os m\u00e9dicos n\u00e3o percebem que enquanto est\u00e3o preenchendo documentos est\u00e3o gerando economia para a operadora, que det\u00e9m a chave do cofre.<\/p>\n<p>N\u00e3o satisfeitos, o lobby das operadoras, com franco aux\u00edlio da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/ans\/pt-br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>Ag\u00eancia Nacional de Sa\u00fade<\/u><\/a>, aprovou a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ans.gov.br\/component\/legislacao\/?view=legislacao&amp;task=TextoLei&amp;format=raw&amp;id=MzQzOQ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">RN 424<\/a>, que trata das juntas m\u00e9dicas e odontol\u00f3gicas. Sob a afirma\u00e7\u00e3o falsa de preocupa\u00e7\u00e3o com o usu\u00e1rio, come\u00e7aram a colocar em d\u00favida o atendimento assistencial do prestador frente ao seu pr\u00f3prio paciente, visando a postergar, restringir ou mesmo negar o atendimento. Todas as vezes que uma operadora instaura uma junta m\u00e9dica ou odontol\u00f3gica, ela coloca em d\u00favida a qualidade do seu pr\u00f3prio preposto, em aut\u00eantica deprecia\u00e7\u00e3o da qualidade assistencial que ela mesma oferece. Al\u00e9m disso, macula subjetivamente o profissional, j\u00e1 que este passa a sofrer uma s\u00e9rie de pedidos de instaura\u00e7\u00e3o de juntas, servindo os indicadores como franco mecanismo de deprecia\u00e7\u00e3o qualitativa. O pior \u00e9 que poucas pessoas conseguem entender o que de fato se passa por tr\u00e1s desses mecanismos de duvidosa \u00e9tica e efici\u00eancia t\u00e9cnica. Como pedir ao m\u00e9dico um atendimento cl\u00ednico de 1 hora a pre\u00e7o de R$30,00? Isso sem considerar os encargos fiscais. Ser\u00e1 mesmo esse o objetivo dos planos de sa\u00fade ao dialogar sobre modelos de remunera\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Segundo o Princ\u00edpio de Pareto, apenas 20% daquilo que voc\u00ea produz responde por cerca de 80% do resultado obtido. Nessa ordem de ideias, os m\u00e9dicos precisam entender que nenhum profissional sai da faculdade com ganhos estratosf\u00e9ricos. Bons profissionais demandam tempo de dedica\u00e7\u00e3o e estudos e uma boa qualidade do atendimento assistencial a que se prop\u00f5em. Achar que a dedica\u00e7\u00e3o profissional exclusiva a uma ou outra operadora \u00e9 a sa\u00edda para uma vida profissional segura \u00e9 franquear ao tomador de servi\u00e7os a oportunidade da escraviza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Os gestores dos planos de sa\u00fade sabem muito bem como isso funciona. Os m\u00e9dicos n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso fazer o processo de \u201cre-humaniza\u00e7\u00e3o da medicina\u201d, por\u00e9m, de maneira aut\u00f4noma, sem a depend\u00eancia predat\u00f3ria dos planos de sa\u00fade. A medicina sofre francos ataques por todos os lados. Dizer que a remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dica precisa evoluir para um tratamento humanizado \u00e9 conversa fiada para desviar, uma vez mais, da ideia de remunera\u00e7\u00e3o justa para os profissionais. As operadoras, com expl\u00edcito auxilio da autarquia federal da ANS, v\u00eam fazendo isso h\u00e1 anos. A ANS j\u00e1 disse que n\u00e3o ir\u00e1 interferir no modelo de remunera\u00e7\u00e3o escolhido entre as partes, por\u00e9m j\u00e1 disse que para ela o\u00a0<i>fee for service<\/i>\u00a0deve de fato ser substitu\u00eddo. Quem disse a ela, ANS, que esse modelo n\u00e3o funciona, sen\u00e3o as pr\u00f3prias operadoras, em suas conclus\u00f5es de encontros e congressos em que se discute de onde tirar\u00e3o mais dinheiro e aumentar\u00e3o seus lucros. N\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico encontro em que as operadoras discutam a melhoria da remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dica.<\/p>\n<p>O grito de liberdade e independ\u00eancia precisa ser dado enquanto h\u00e1 tempo e com o necess\u00e1rio auxilio das entidades coletivas profissionais, a estimular, de maneira aberta, que as pessoas busquem alternativas para se cuidar. Sem m\u00e9dico n\u00e3o h\u00e1 sa\u00fade. M\u00e9dicos isolados s\u00e3o presas f\u00e1ceis nas m\u00e3os dos tomadores de servi\u00e7os e sempre ser\u00e3o explorados pelos grandes conglomerados financeiros que, mais do que nunca, aportam em nosso pa\u00eds grandes somas financeiras. \u00c9 chegada a hora. Independ\u00eancia ou morte.<\/p>\n<p><b>*Artigo publicado por\u00a0<a href=\"http:\/\/valerioribeiro.adv.br\/equipe\/valerio-augusto-ribeiro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Val\u00e9rio Ribeiro<\/a>\u00a0na edi\u00e7\u00e3o n\u00ba371 da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.revistaemvoga.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Revista Em Voga<\/a>.<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segundo dados de pesquisa recente do\u00a0N\u00facleo de Estudos e An\u00e1lises \u2013 NEA\u00a0da Universidade Federal do Tri\u00e2ngulo Mineiro, as despesas com sa\u00fade em nosso pa\u00eds, no ano de 2020, consumiram cerca de R$692,88 bilh\u00f5es, ou seja, de 9,3% de todo o PIB anual.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":648,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-647","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/carlosp.com.br\/vr\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/647","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/carlosp.com.br\/vr\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/carlosp.com.br\/vr\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/carlosp.com.br\/vr\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/carlosp.com.br\/vr\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=647"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/carlosp.com.br\/vr\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/647\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":649,"href":"https:\/\/carlosp.com.br\/vr\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/647\/revisions\/649"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/carlosp.com.br\/vr\/wp-json\/wp\/v2\/media\/648"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/carlosp.com.br\/vr\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=647"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/carlosp.com.br\/vr\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=647"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/carlosp.com.br\/vr\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=647"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}